O primeiro capítulo de Entre Acordos e Segredos chegou 🎉
Estão preparadas para descobrir todos os segredos?
Olá, Mimosas!
Faltam apenas 7 dias para o lançamento do segundo livro da série Os Manoj e eu já vim soltar o primeiro capítulo completo para atiçar vocês. 🥰 Então leiam e se preparem para viver muitas emoções dia 23/09. Quero todos os surtos na minha mesa, hein? ❤️🔥🎻🗡️
Espero que gostem!
CAPÍTULO 1
Mellieħa, Malta, 03 de junho de 1769, sábado
Se tinha uma coisa que o famigerado Conde Assassino — também conhecido como Carlo Olivieri — não queria fazer em uma linda manhã de sol era comparecer àquele aniversário fúnebre.
Embora deixasse bem claro à sua mãe o quanto se opunha a toda aquela ideia, nada pôde fazê-la desistir e, agora, encontrava-se chacoalhando levemente dentro da carruagem que os levariam ao Santuário de Nossa Senhora de Mellieħa, no alto da colina vizinha, sem prestar a menor atenção à belíssima paisagem de casas de calcário bege com o mar azul-turquesa no horizonte. Não que ir à igreja fosse algo ruim para ele. Pelo contrário, crescera acostumado a acompanhar seus pais à missa dominical e mantivera esse hábito até o verão passado. Porém, o motivo pelo qual iam ao Santuário nesta manhã era o que, de fato, o desagradava.
Uma missa de aniversário que não era, em nenhuma hipótese, algo a se comemorar — tampouco era o que iriam fazer, afinal, a data marcava o primeiro ano da morte do seu irmão mais velho.
Morte esta que, aliás, toda a vila lhe atribuiu a culpa.
Infelizmente, ele não podia negar tal boato.
— Carlo? Está me ouvindo? — chamou a distinta senhora sentada diante de si no coche, de cabelos precocemente grisalhos, porém cuidadosamente arrumados num penteado alto e bonito, com seu vestido preto elegante combinando com a tradicional għonnella, uma espécie de manto com um capuz tão engomado que seu formato arredondado ficava rígido sobre a cabeça das mulheres.
Empertigou-se, tentando afastar tais pensamentos.
— Desculpe-me, mãe, me distraí. O que a senhora disse?
Ela o fitou por alguns instantes com seus astutos olhos castanhos, tão diferentes do azul-pálido que coloria a única íris que lhe sobrara, antes de soltar um longo suspiro.
— Eu estava dizendo que precisamos aproveitar o seu retorno definitivo a Malta para anunciar o seu noivado.
Carlo franziu o cenho, intrigado.
— Que noivado? Até um minuto atrás, não me recordo de ter pedido a mão de qualquer dama em casamento.
— Por isso você precisa se apressar, querido — falou com a maior naturalidade, numa manobra óbvia de convencimento.
— Acredito que a senhora esteja começando a ficar caduca, Donna Giuseppa. — Ela se inclinou e bateu com o leque em seu joelho esquerdo, repreendendo-o pela afronta. — Já esqueceu da minha última noiva? Aquela que me repugnou quando soube dos boatos e viu o estado em que ficou o meu rosto?
— Não seja tolo, aquilo foi um livramento divino. Decerto, a senhorita Dorelli importou-se mais com o segundo motivo, afinal, precisou vê-lo pessoalmente para, então, decidir se encerraria o noivado ou não. Lembro-me muito bem que ela sequer quis escutar a sua versão, dando-lhe as costas no instante em que viu o seu ferimento. Quem ama não se importa com tais frivolidades.
De fato, a memória de sua mãe estava em perfeitas condições. A expressão de choque e ojeriza de Clarissa ao vê-lo descobrir o rosto dos curativos e exibir a grande cicatriz e o olho vazado, que ela mesma exigira ver, ainda o assombrava.
— A senhora jamais simpatizou com ela, portanto, veria defeito em quaisquer atitudes que tivesse — observou, áspero.
— E curiosamente, minha intuição estava certa. Inusitado, não? — Giuseppa devolveu com ironia. Sua mãe tinha a questionável mania de dar muito valor à intuição. — Ademais, não pense que sou ignorante de suas reais intenções com aquele noivado repentino. Você estava farto e queria fugir de alguma forma, eu sei, assim como fez ao alistar-se no exército. Não o condeno, aliás. Porém, duvido que você amasse aquela moça. E ela muito menos, como pudemos constatar.
Carlo resolveu ignorar o adendo.
— Mas isso não muda o fato de que os boatos contribuíram para a decisão de Clarissa.
— Quem ama também confia, meu filho. Seu pai e eu confiamos em ti, não confiamos? Quem ela pensava que era para duvidar, afinal?
— E quem me garante que as outras não me rejeitarão do mesmo jeito?
— Você precisa deixar o orgulho de lado, Carlo — falou, suavizando a voz. — Sei o quanto a atitude da senhorita Dorelli o magoou, mas isso não quer dizer que todas farão o mesmo. Além do mais, já se passou um ano... Nossa família precisa que você supere este problema de uma vez por todas.
Suspirou, cansado. Sabia onde ela queria chegar com tal conversa.
— Eu já superei, mamãe.
Bem, isso não era totalmente verdade.
Embora Carlo detestasse mentiras, jamais iria admitir que ainda se ressentia de Clarissa; volta e meia flagrava-se remoendo o que lhe fizera, imaginando como seria o futuro se ela o tivesse apoiado e ficado ao seu lado quando mais precisou do seu amparo. Teria encontrado forças para se recuperar mais rápido? A culpa que sentia pelo irmão teria diminuído? Estariam carregando nos braços os filhos que desejavam, tão imersos em felicidade que se veriam alheios a todos os problemas do mundo?
Jamais saberia. Jamais a perdoaria.
Ele não era homem de segundas chances, afinal.
Embora o tempo, como era de se esperar, tivesse atenuado sua ferida, ela ainda doía quando pressionada. Ou seja, quando via as expressões de pena, medo ou repulsa no rosto das poucas pessoas que punham os olhos em sua face, deformada desde aquele fatídico dia como uma sentença perpétua. Hoje, aqueles olhares lhe ofendiam ainda mais que a rejeição de Clarissa.
— Entretanto — continuou, fitando-a de queixo erguido e braços cruzados —, estou longe de ser considerado um bom partido e não estou disposto a passar pela humilhação de convencer uma dama a casar-se comigo.
— Desde quando o futuro Conde Olivieri não é um bom partido? Está sendo dramático, querido — argumentou, pragmática, abanando-se com o leque preto e rendado. — E você há de convir que não temos outra escolha.
Donna Giuseppa inclinou-se outra vez em sua direção e baixou o tom de voz, mesmo estando apenas os dois no coche:
— Me parte o coração dizer isso, e que Deus permita o contrário, mas… não sabemos se seu pai irá aguentar por muito mais tempo. Está cada dia mais abatido, meu pobre Ignazio… — Levou a mão ao peito, aflita. — Se Tommaso herdar o título e todas as nossas posses, estaremos perdidos. Ah, meu filho, você não sabe do que aquele homem horrível é capaz!
— Saberia se a senhora me contasse — pontuou pela milésima vez, mas ela nunca dizia o que sabia sobre o cunhado. Hoje não seria diferente, pelo visto.
Carlo Olivieri detestava segredos e sua família era cheia deles. Quanta ironia! Contudo, uma coisa era certa: tio Tommaso não passava de um abutre rondando a enfermidade de seu pai, à espera de uma oportunidade para se refestelar na carniça.
Giuseppa esticou a mão e tocou o seu antebraço, num gesto de carinho angustiado.
— Não podemos ir contra certas regras da família, por mais imbecis que sejam. Você sabe que precisa estar ao menos casado quando seu pai partir, senão o título passará para o seu tio sem que possamos fazer algo a respeito. E se ele descobrir sobre você…
— Eu sei, mamãe — interrompeu, incomodado.
Tinha plena consciência de que ela não falava apenas como condessa, mas como a mãe zelosa que sempre fora. Caso seu tio finalmente alcançasse o título que tanto almejava, Carlo seria o primeiro a ser enxotado para o olho da rua. Donna Giuseppa, por outro lado, poderia sofrer muito mais nas mãos daquele canalha, uma vez que dependeria da bondade dele para sustentar alguém que jamais gostara.
Seu pai, infelizmente, não conseguia enxergar tão claramente a estirpe do irmão.
— Jamais deixaria qualquer mal lhe acontecer, mas um matrimônio depende de duas pessoas. Não sei se posso lutar com essas armas. Não foi a senhora quem reclamou há poucos meses que nenhuma família demonstrou interesse em suas sondagens?
— Nenhuma família da nobreza, devo salientar.
Carlo surpreendeu-se.
— A senhora procurou alguma família desprovida de títulos? Isso é novidade.
— Ora essa, por que o espanto? Não é do meu feitio apontar a falta de títulos como um total demérito — reclamou, erguendo o queixo. — Mas não, não procurei. Ainda.
— Não que eu me importe com isso, ou até mesmo com o título de conde, para ser sincero… Porém, as mesmas regras da família ditam que o primeiro na linha de sucessão deve se casar com outra pessoa da nobreza, caso esteja esquecida.
— Essa está mais para uma forte recomendação. E diante das circunstâncias, querido, receio que não podemos nos dar ao luxo de sermos tão exigentes. — A mulher voltou a recostar-se e se abanar. O verão mal começara e já estava bastante quente.
— Não será mais um motivo para tio Tommaso contestar o título, uma vez que, infelizmente, me tornei o único na linha de sucessão direta?
— Não se o atual Conde Olivieri autorizar antes. — Deu de ombros, confiante. — No final, depois de tantos problemas por falta de herdeiros legítimos nas gerações anteriores, assegurar a linhagem para a passagem do título é tudo que importa. E você sempre soube que assumiria no lugar de Elio. Ele não tinha condições, coitado.
A lembrança murchou levemente a pose de Giuseppa.
— Só de fachada, para ajudá-lo. Jamais quis que ele morresse para herdar o seu título.
— Eu sei, querido — falou, num tom condescendente. — Porém, há males que vêm para o bem. Deus é testemunha de que eu não desejava perder meu filho, sobretudo daquela maneira, mas sei que Elio descansou do seu sofrimento. Todos nós pudemos descansar também.
Carlo não disse nada, pois não sabia se sua vida era pior com ou sem ele.
Depois de todas as consequências do incidente, isolou-se por meses na ilha vizinha, Comino, esperando que, de fato, pudesse viver em paz quando retornasse. Mas bastou a mera menção da sua presença em Mellieħa na última semana para que as fofocas reacendessem.
Se tinha uma coisa que Carlo não se sentia, era descansado.
— Bem — retomou ela, sorrindo —, agora que você irá deixar a sua clausura autoimposta e voltará a participar dos eventos sociais, logo achará uma moça que o agrade para desposar. Tudo irá se resolver.
— Vou? — resmungou, fitando a paisagem pela janela.
— Por que não iria?
— Que tal a senhora escolher uma que lhe agrade e fazer os arranjos de uma vez? Eu não me importo. Nenhuma mulher aceitaria se casar com o Conde Assassino se não fosse por dinheiro, portanto, o amor seria irrelevan…
Recebeu outra pancada com o leque, desta vez na cabeça. Bem forte.
— Ai! — Voltou-se para ela, esfregando o cocuruto dolorido, cuidando para não bagunçar os fios escuros. — Precisava mesmo disso?
— Sim, para você aprender a parar de falar asneiras. Todos sabem que a justiça decretou um acidente. Ninguém o chama assim.
Donna Giuseppa se empertigou, analisando se o leque de madrepérola ainda estava inteiro. Para a tristeza de Carlo, estava.
— Não na sua frente, por motivos óbvios — teimou.
Ela revirou os olhos e retomou o tópico com um aceno impaciente.
— Jamais lhe induziria a uma vida infeliz, meu filho, jamais. Apenas estou suplicando que se apresse em deixar o passado para trás e retome a sua vida.
— Eu sei, mãe… — Suspirou, resignado. — Eu sei.
O que ele não sabia era como um casamento por tais motivos poderia ser feliz.
Tampouco se, algum dia, ele seria feliz novamente.
— Façamos um acordo, sim? — disse ela, num tom que não deixava espaço para escolhas. — Você participará de todas as próximas reuniões sociais e não será antipático, enquanto eu me esforçarei para garantir que boas moças estejam lá para que as conheça.
— Todas as reuniões?
— Todas que importam.
— Tudo bem. — Revirou os olhos. — Só não garanto quanto ao antipático.
— Estou certa de que irá se esforçar. Veja, estamos chegando — acrescentou, olhando pela janela.
Carlo se inclinou e observou a praça do Santuário se aproximando, repleta de carruagens. Esta era a primeira vez que saía para uma aparição pública desde o incidente, e embora não deixasse transparecer, estava apreensivo com o julgamento que certamente recairia sobre si.
Soltou um longo suspiro, procurando manter a postura e o queixo erguido quando o coche finalmente parou diante do belo arco monumental de arquitetura barroca que levava ao pátio. Já estivera lá outras vezes e sabia que era um local bastante espaçoso, cujas loggias ao fundo deixavam à mostra o belíssimo azul da baía de Mellieħa.
Hoje, no entanto, havia tantas pessoas que não era possível enxergar o mar direito.
Não precisou prestar atenção para entender que todos os olhares estavam voltados para si quando o cocheiro abriu a porta e Carlo Olivieri desceu do veículo. O silêncio era absoluto.
E perturbador.
Parecia que todas aquelas pessoas no pátio estavam prendendo a respiração, ansiosas para ver o infame Conde Assassino na epítome da sua petulância, ao ter o desplante de comparecer pessoalmente à missa em homenagem ao irmão que assassinara.
Sua mãe o convencera de que se esconder só aumentaria os boatos e a culpa; porém, agora que estava diante do escrutínio daquele povaréu, preferia não tê-la escutado.
Aqueles olhares… Alguns de assombro, outros de pena, desprezo e até curiosidade… Odiava aqueles olhares. Ninguém tinha nada com a sua vida, mas todos se achavam no direito de lhe dirigir tais sentimentos silenciosos.
Ainda bem que manter a pose austera era uma de suas especialidades.
Sustentou a cabeça erguida e o olhar gélido enquanto ajudava a condessa a desembarcar. Não precisava da compaixão ou das palavras vazias daquelas pessoas, portanto, o quanto pudesse assustá-las e mantê-las longe, melhor. No entanto, o olhar gentil e sorriso amigável que sua mãe dirigia aos convidados enquanto atravessava o arco e seguia pátio adentro, grudada em seu braço, não estava ajudando em seus objetivos.
Muitos se amontoaram ao seu redor, repetindo condolências bajuladoras que pareciam agradar Giuseppa. Outros perguntavam sobre a falta do conde Olivieri, ao qual sua mãe prontamente respondia:
— Amanheceu deveras indisposto e tivemos de obrigá-lo a ficar em repouso, naturalmente. Este calor esmorece qualquer um. — E todos concordavam.
Não tão curiosamente, as pessoas evitavam puxar assunto com ele, limitando-se a cumprimentá-lo com um meneio seguido de “Dom Carlo”, ao passo que ele se limitava a acenar discretamente. Ao menos podia contar com a civilidade durante os intermináveis minutos que levaram para atravessar o pátio e passar pelo arco sob as loggias, dando-lhes acesso ao corredor que levava à igreja.
Assim que viraram à esquerda, Carlo viu diante da porta alguém que o fez esboçar um leve sorriso pela primeira vez em muito tempo. Ali, conversando com os pais e os irmãos, estava o seu melhor amigo, Matteo D'onofrio, que há quase dois anos não via pessoalmente.
Mesmo após ter ido estudar Medicina na Itália cinco anos atrás, encontrando-se pessoalmente em apenas alguns verões e ficando a cargo da pena e do papel para manter a comunicação em dia, Matteo fora o único amigo que o apoiara abertamente e não se afastara após o incidente.
Não que Carlo tivesse muitos amigos, afinal. Nunca fora dado a muitas amizades ou a relacionamentos, em geral. Fazia mais o tipo reservado e preferia assim, ao contrário do jeito extrovertido e caloroso do outro.
Ao notá-los, Matteo exibiu um largo sorriso simpático e abriu os braços, aproximando-se depressa. Os anos amadureceram suas feições e o Sol clareou vários fios dos seus cabelos castanhos, mas seu sorriso continuava jovial como a primeira vez que o vira.
— Tia Giuseppa!
A condessa só teve tempo de lhe devolver o sorriso. Ele a abraçou com entusiasmo e chegou a suspendê-la alguns centímetros do chão, como sempre fazia, recebendo alguns golpes desesperados de leque nas costas.
— Ei, mocinho, comporte-se! — repreendeu, arrumando as saias e a għonnella, porém, o seu sorriso não deixava dúvidas de que não estava chateada. — Meus ossos não são mais tão firmes quanto antigamente.
— Permita-me duvidar, tia. A senhora não envelheceu nadinha. — Tomou-lhe a mão direita e depositou um beijo galante sobre a luva de renda. Ele não se contentava em apenas inclinar-se sobre as mãos femininas, como manda o decoro. Sempre as beijava de verdade.
— E você não mudou nada, pelo visto. — Carlo tomou a palavra, estendendo-lhe a mão em cumprimento e com um olhar nostálgico. — Continua um grande bajulador.
Matteo soltou uma gargalhada.
— Ah, como eu senti falta da sua sinceridade inconveniente, meu amigo!
Ignorando os olhares curiosos, Matteo apertou sua mão com veemência e, não satisfeito, puxou-o para um abraço, dando-lhe três fortes tapas em suas costas antes de soltá-lo. Carlo correspondeu com igual contento.
Embora soubesse que seu amigo era dado a sair abraçando qualquer pessoa, aquele gesto de cumplicidade diante de tanta gente, naquelas circunstâncias, foi de um significado imenso para Carlo. Seu apoio incondicional, ainda que apenas por escrito, fora imprescindível para que seu juízo não se partisse de uma vez por todas naquela época turbulenta.
Agora, ao ignorar completamente o estigma que trazia no rosto e agir com naturalidade, Matteo deixava evidente para todos que podia contar com sua amizade, independentemente do que diziam sobre ele.
Não podia se sentir mais grato.
Porém, como seu amigo era um grande palhaço, não resistiu à troça:
— A cicatriz ficou feia, hein? Se eu tivesse feito a cirurgia, não teria ficado desse jeito.
Agora Carlo sentia-se aliviado, pois uma parte da sua vida voltara ao normal. Nenhuma outra pessoa no mundo poderia falar com ele daquela maneira.
— Claro que não, teria ficado pior — devolveu, suspendendo ligeiramente o canto da boca. Matteo riu. — Quando chegou?
— Esta manhã. Mandei entregar minha bagagem em casa e vim direto para cá.
— O quê? Como sabia da missa?
— Eu mandei um convite há meses — Giuseppa respondeu, sorrindo discretamente e acenando para a família de Matteo, que se aproximava.
— Por que não me contou?
— Quis lhe fazer uma surpresa, querido. — Acariciou seu rosto como quem afaga uma criancinha. Carlo afastou sua mão com sutileza. — Achei que a presença de um amigo o alegraria. Porém, como Matteo não tinha certeza se conseguiria vir, não quis lhe dar falsas esperanças.
— Pelo amor de Deus, mamãe, a senhora fala como se eu estivesse desesperado — censurou, baixando a voz.
— Não precisa ficar encabulado, meu amigo. — Matteo também baixou a voz, sorrindo. — Eu sei o quanto sou benquisto. É uma das minhas inúmeras qualidades.
Carlo revirou os olhos, enquanto ouvia sua mãe dar uma risadinha por detrás do leque, e deixou escapar um levíssimo sorriso também. Como seu bom humor lhe fez falta!
— Temos tempo para conversar um pouco? — Matteo perguntou, indicando com a cabeça um canto mais afastado dos demais.
Contudo, antes que um dos dois Olivieris pudesse responder, outra voz soou atrás deles.
Uma voz que ambos detestavam.
— Receio que não, Dom D'onofrio. — Viraram-se para encarar Tommaso Olivieri, acompanhado de sua esposa, Concetta. — Falta pouco para a missa começar e não é de bom-tom que o irmão do falecido fique jogando conversa fora com amigos. Podem interpretar como indiferença.
O corpo de Carlo se retesou por inteiro conforme a raiva crescia dentro de si. Estava prestes a lhe responder quando sentiu sua mãe apertar seu braço em um sinal para conter-se.
Lançando um olhar significativo para o amigo, Matteo fez uma breve mesura e falou:
— Compreendo perfeitamente, Dom Tommaso. Teremos tempo de sobra após a missa. Vou deixá-los à vontade. Com sua licença, senhores. Damas.
Girou nos calcanhares e voltou para perto de sua família, desviando-os para dentro da igreja antes que os alcançassem.
— Tommaso. Concetta — Giuseppa cumprimentou com um levíssimo meneio de cabeça. — Estava mesmo me perguntando onde vocês estavam.
— Lá dentro, em nossos assentos. Saímos para ver se haviam chegado, uma vez que estavam demorando.
Carlo apertou os lábios, irritado.
Viu o homem tomar a mão da cunhada e mal inclinar-se sobre ela. Tio Tommaso nunca chegava perto da mão de Donna Giuseppa, por mais natural que esse cumprimento fosse. A antipatia era recíproca, mas ambos mantinham as aparências como podiam.
— Seus filhos não vieram? — sua mãe perguntou.
— Estão todos dentro da igreja. Onde está Ignazio?
— Amanheceu deveras indisposto e tivemos de obrigá-lo a ficar em repouso, naturalmente. Este calor esmorece qualquer um — respondeu a condessa, bem ensaiada.
— Ah, que pena! — Tia Concetta tomou a palavra. — Ele não participará do almoço, mais tarde?
Esta fora outra ideia com a qual Carlo discordara veementemente. Porém, sua mãe não lhe deu ouvidos.
— Acredito que até lá estará melhor e será capaz de participar, sim. Até porque não precisará sair de casa para almoçar conosco — Giuseppa respondeu, com seu melhor sorriso falso.
— Ficamos felizes em saber que não é nada sério, portanto.
— Não precisa se preocupar, tio. Não é — Carlo emendou, com semblante severo.
Tudo o que seu tio mais queria era que fosse algo sério, sim.
— Graças ao bom Deus. — Tommaso sorriu. — Vamos?
Sua mãe concordou com a cabeça e o grupo seguiu em direção à porta da igreja, mas mal haviam entrado na nave quando virou-se para ele.
— Carlo, querido, você pode ir até o coche verificar se eu trouxe o meu leque maior? Este aqui não está sendo tão efetivo.
Aquela era a sua chance de ficar um pouco sozinho.
— Sim, senhora.
Saiu rapidamente da igreja, que começava a encher de convidados, tomando o caminho em direção ao pátio. Ao passar pelo arco sob as loggias, lembrou-se da vista e deteve-se, desviando a rota para ter uma melhor visão do mar e da vila abaixo.
A vista dali era sempre lindíssima.
Agradecia a Deus por ainda ter um olho que pudesse enxergar, já que o esquerdo fora danificado no incidente e agora não passava de uma bola opaca e leitosa desprovida da sua função original. Também não fazia questão de continuar usando o tapa-olho, pois isso poderia indicar uma preocupação em poupar as pessoas de tal visão medonha, algo que ele definitivamente não queria parecer que tinha. Se era tão horrível assim, bastava não olhar e ficar bem longe, ora essa!
Permitiu-se levar alguns momentos admirando o cenário e, então, começou a atravessar o pátio em direção ao coche. Quando estava quase alcançando o arco monumental, escutou vozes alteradas mais adiante. Pareciam duas pessoas discutindo.
Teria ignorado e seguido sua vida se não tivesse ouvido uma voz feminina esbravejando “Solte-me!”, e uma masculina respondendo em tom autoritário “Não!”.
De imediato, o seu instinto de cavalheiro e seu reflexo militar impulsionaram suas pernas à frente, pronto para defender uma dama em perigo. Esquecendo-se completamente de que, nos últimos tempos, vislumbrar o seu rosto ou ouvir o seu nome também causava pânico às damas.
— Você está exagerando, Kasha! — Ouviu o homem falar, pouco depois de cruzar o arco e alcançar a rua.
— Deixe-me em paz!
Só deu tempo de vê-los aos pés de uma travessa que levava à rua de cima, o homem alto e magro segurando uma mulher de estatura mediana e formas arredondadas pelo pulso esquerdo, antes de assistir à cena que o deixou estupefato.
Em seus quase vinte e sete anos de vida, Carlo jamais vira uma dama fazer aquilo.
Rotacionando o quadril para potencializar o movimento, a mulher desferiu um fortíssimo gancho de direita nas costelas flutuantes do rapaz. E um soco cruzado em seu queixo, em seguida.
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Carlo, Kasha e suas famílias cheias de união e barraco estão esperando por vocês!
Mil beijos,
Mima

